… estes também somos nos (num sonho)

Na outra noite sonhei contigo. Eu vinha pela rua abaixo cheio de pressa ao que parece, meio vestindo-me, meio dançando, estressado e feliz… e contribuindo para – se não causando – tudo o anterior uma morenaça agarrada do braço. Tamos atrasados tamos atrasados – dizia ela e eu ajeitava o sapato; é sempre a mesma coisa, vamos chegar e eles já se cassaram – continuava a minha deusa da pressa e eu apertava o cinto, apertava as nádegas e acelerava o passo. Curiosamente o efeito que este “ir a correr” tinha em mim era diferente ao da miúda (não apanhei-lhe o nome); em quanto ela blanca-flor-nuvem deslizava com graça sobre o pavimento, eu desfilava mistura de lagarto com dor de barriga e pato com PTSD. Como depois de um bocado a quase tudo uma pessoa se acostuma e as vezes ate começa a desfrutar, assim – ainda a correr pela rua – comecei a reparar nesta formosura que o sonho decidiu me acompanharia sempre puxando do braço… ah vamos a um casamento… mas casamento de quem, quem se cassa? É uma experiência interessante esta de aparecer no meio de um truculento ir a onde nada sabemos… como se já adultos estivesse-mos a ser paridos para quem é esta miúda gira… por que me puxa do braço?

Antes de conseguir resposta alguma chegamos a uma igreja que mais parecia um chiringuito de praia disfarçado de marisqueira vietnamita. O “prédio” era todo construído em madeira e o telhado forrado com grandes folhas de palmeiras secas. A volta do terreno onde a igreja assentava, havia um muro e por trás do muro casas pintadas de alegres cores; tudo rodeado de frondosas árvores tropicais… assim laranjas monge, verdes viridian quase pistachio e óxidos jade a procura de lapiszuli se fusionavam para fazer pano de fundo ao edifício mais escuro, escuro mas curiosamente leve, tão leve de facto que parecia que se dispunha a levantar voo…

Especado a frente deste altar psilocybiniano era nestas elucubrações que eu me encontrava sumido; de repente reparei que a moça tinha-se pisgado, provavelmente foi a correr lá p’ra dentro, não deve querer perder o sim quero por nada do mundo pensei, mas assim solta que frase pombalina “não deve querer perder o sim quero por nada do mundo”, em fim… dizia, pensei e pouco mais do que isso porque – e é que os sonhos (caso haja dúvidas) seguem sempre a regra more is more – momentos depois estava te a ver ali deitado no chão de relva, relva e grandes folhas verdes. Para minha surpresa dentro do sonho não fiquei nada surpreendido, e disse para comigo olha ali o André… o canito.
Descrever o que tu parecias não é fácil, de todo; porque alem das minhas limitações descritivas, parecias muitas, muitíssimas e complexas, contraditórias coisas juntas, juntas numa harmonia que chatiava, que chateia como algo que está muito para alem de nós do nosso alcance de mão suja e déficit de atenção… vou fazer meu melhor.

Um mendigo, era essa a primeira impressão que se tinha, pois tavas deitado no chão com um a vontade que só os africanos lá da África mesmo e os sem-abrigo (bom e o Alex) tem com o chão, como apreciando a textura, com ple ta men te a vontade, num ioga simples do estar deitado, num reclinar romano sem banquete… assim te vi sobre a relva meio queimada e as grandes folhas verdes. Parecias ligeiramente entretido, do género de quase a ficar desentretido com qualquer coisa que se passava do outro lado do muro… mesmo assim não o suficientemente interessado para fazer o esforço de ir espreitar… se fosses um deus, e tudo o criado estivesse ao teu alcance e tivesses estado ali deitado por um milhão de anos e a tua frente uma galinha andasse a perseguir uma barata, mais o menosh assim era que estavas. Mas mal me vistes, levantas-te, não a correr, não não, devagarinho (como gosto dessa palavra), muito devagarinho, meticulosamente vagaroso e a espreguiçando-te de forma tal que as aves em unissono deixaram de cantar e abriram muito os bicos num aarhhhhhhhggghhhhhh. Em quanto te aproximavas a imagem primeira que eu tinha tido transformava-se agora numa outra, pois trazias vestida uma camisa de linho ou tal vez algodão enrugada mas impecável, sem uma nodoa o que era um mistério porque aquele chão… em fim… e uns calções que te assentavam como se tivessem crescido a volta do teu corpo… se um príncipe encomendasse a seu melhor alfaiate um traje para passar desapercebido no meio da plebe… seria a tua imagem.

Muito próximo de mim ouvi-te trautear mhuishk muiaghkh e soltar um suspiro, que chatice mal passou um milhão de anos e já tem um gajo que se levantar! parecias pensar, mas no teu rosto vinha o sol em forma de sorriso. Abraçamos. E como se tudo tivesse a seguir rigorosamente uma pauta maluca escrita algures pela Dani, demos meia volta e nos dirigirmos a entrada da igreja. Ai tu viraste a cabeça e disseste muito descontraído vai com calma e não me enchas com tuas merdas, claro que de repente eu fiquei cheio de merdas e com muita pouca calma; pensando olha-me este cabrãozinho empertigaitado… mas o sentimento e o pensamento se desvaneceram rapidamente e tu próprio, uma vez fora do supor e o suporte do chão, ficaste rapidamente histérico e a provocar e te meteres com todas as pessoas, animais e incluso objetos inanimados que encontrávamos no caminho. Antes de acordar, lembro-me claramente que não fiquei contento pela ironia, por te contradizeres (que não o fizeste), mas de olhar p’ra ti e p’ra mim, para nos por tanto, com carinho e com um redentor estes também somos nos. E assim acordei.

 
 

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